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A fotografia de aves está na ciência para ficar de vez

Bianca Vieira

Texto por: Bianca Vieira

Quando eu era uma criança lá pela década de 90, as câmeras fotográficas profissionais eram o tipo de equipamento que só fotógrafos teriam. Naquela época, meus pais tinham uma câmera amadora de uma lente reflexiva (SLR) muito simples. Eles sempre me avisavam para gastar os filmes, que eram caros, apenas com ocasiões importantes. Ocasiões importantes para eles eram aniversários, passeios e encontros com a família e amigos. Para mim, ocasiões importantes eram achar animais na natureza. Mas, tentar fotografar aves com aquelas câmeras era uma perda de tempo e dinheiro porque as aves nunca paravam tempo suficiente para uma boa foto. Durante os anos 2000, as câmeras e seus acessórios se tornaram mais baratas, de fácil uso e muito mais eficientes em captar movimentos rápidos (Hirsch 2008). Então, agora muitos pesquisadores de fauna silvestre, incluindo eu mesma, possuem a oportunidade de explorar os usos das câmeras digitais de uma lente reflexiva (DSLR) para estudar as aves.

Assim como os métodos de fotografia desenvolveram ao longo do tempo, a extração de dados das imagens se tornou mais refinada e começou a ser aplicada em diferentes áreas. O equipamento fotográfico e os tipos de fotografia evoluíram. Adaptações em estudos da vida silvestre começaram com armadilhas fotográficas captando imagens isoladas até time-lapses (Carey 1926, Cowardin & Ashe 1965, Huffeldt & Merkel 2013, Gaglio et al. 2016, Merkel et al. 2016).
Nos últimos anos, o uso de drones (veículos aéreos não tripulados) para captar imagens na pesquisa também se estabeleceu (Chabot et al. 2015, Ratcliffe et al. 2015, Vas et al. 2015), assim como o uso de câmeras térmicas (Herborn et al. 2015, Jerem et al. 2015) para registrar partes de um animal ou até mesmo colônias inteiras. Congelar um momento para repetidamente analisá-lo em detalhes abriu portas para muitas oportunidades, incluindo estudos de tamanhos populacionais, sucesso reprodutivo, níveis de estresse em determinadas condições e até mesmo sobre processos de muda de penas (Snyder et al. 1987, Huffeldt & Merkel 2013, Jerem et al. 2015, Gaglio et al. 2016, Merkel et al. 2016).

A fotografia tem sido usada tanto esporadicamente quanto sistematicamente no estudo de muda de aves, mas até o momento ninguém tinha verificado quão efetivo era classificar as penas usando imagens em comparação com as aves analisadas na mão. Os resultados que eu e meus co-autores publicamos na Ibis confirma a possibilidade do uso da fotografia para avaliar a muda de aves e abre oportunidades para mais estudos sobre esse aspecto da ornitologia. Agora temos certeza de que a avaliação de imagens é possível, confiável e pode ser repetida. Os projetos poderão fazer uso das vantagens da fotografia, como a necessidade de menos equipamento, menos pessoas em campo e a possibilidade de uso da técnica em situações nas quais a captura das aves é dificultada. Além disso, as fotografias são arquivos permanentes, obtidas com menos distúrbio aos animais em relação às capturas, e possibilitam um maior número de indivíduos amostrados.

A fotografia aplicada no estudo das aves pode ainda ser adaptada. O uso de iscas e playback pode atrair as aves para fotografias em determinadas posições. Além disso, a associação com outros métodos, como as câmeras térmicas, pode trazer ideias sobre como os processos de estresse alteram a fisiologia da ave e as estratégias de muda. Apesar de não possibilitar a marcação dos indivíduos, a fotografia pode se beneficiar do reconhecimento individual por marcas naturais, como nos olhos e no bico, bem como marcas previamente feitas em outras campanhas com anilhas, tintas ou colares.

A extensão geográfica que os estudos podem alcançar com o uso de câmeras também é muito maior. Treinar pessoas para fotografar aves acaba sendo mais fácil do que achar especialistas em captura e licença para cada local de estudo. A fotografia já é popular entre entusiastas da natureza e observadores de aves. E a vontade das pessoas de fazer mais pelo ambiente com atividades de ciência cidadã abre caminho para iniciativas cada vez mais inclusivas. As possibilidades de uso da fotografia na ciência são amplas e trabalhar juntos pode ajudar pesquisadores em todo o mundo a testar mais hipóteses e desenvolver teorias para melhorar nossa sociedade.

Sobre a autora

Bianca Vieira é ornitóloga e estuda a ecologia e migração de aves marinhas e costeiras. Ela tem estudado o efeito das atividades antrópicas e mudanças ambientais em espécies e habitats costeiros, bem como a riqueza e distribuição de espécies na Mata Atlântica brasileira usando observações, fotografias e anilhamentos. Seus interesses focam principalmente em ecologia da migração, biologia da conservação, dinâmicas populacionais e ecologia espacial. É co-fundadora do Latin American Seabird Group, conselheira na Pectem Technology e coordenadora de um projeto de pesquisa independente para monitoramento de aves costeiras no sul do Brasil. O projeto de doutorado de Bianca é patrocinado pela Agência Capes/MEC.

 

Artigo relacionado
Using field photography to study avian moult. Bianca P. Vieira, Robert W. Furness & Ruedi G. Nager. 2017. Ibis. DOI: 10.1111/ibi.12445

Referências e leitura aprofundada

Carey, H.R. 1926. Camera-trapping: a novel device for wild animal photography. J. Mammal. 7: 278-281.
Chabot, D. & Bird, D.M. 2015. Wildlife research and management methods in the 21st century: Where do unmanned aircraft fit in? J. UVS 3: 137-155.
Cowardin, L.M. & Ashe, J.E. 1965. An automatic camera device for measuring waterfowl use. J. Wildl. Manage. 29: 636-640.
Gaglio, D., Cook, T.R., Connan, M., Ryan, P.G. & Sherley, R.B. 2016. Dietary studies in birds: testing a non‐invasive method using digital photography in seabirds. Methods Ecol. Evol.: DOI: 10.1111/2041-210X.12643.
Herborn, K.A., Graves, J.L., Jerem, P., Evans, N P., Nager, R., McCafferty, D.J. & McKeegan, D.E.F. 2015. Skin temperature reveals the intensity of acute stress. Physiol. Behav. 152: 225-230.
Hirsch, R. 2008. Seizing the light: A history of photography. 2nd ed., New York: McGraw-Hill Education.
Huffeldt, N.P. & Merkel, F R. 2013. Remote time-lapse photography as a monitoring tool for colonial breeding seabirds: a case study using thick-billed murres (Uria lomvia). Waterbirds 36: 330-341.
Jerem, P., Herborn, K., McCafferty, D., McKeegan, D. & Nager, R. 2015. Thermal imaging to study stress non-invasively in unrestrained birds. J. Vis. Exp. 105: 53184.
Merkel, F.R., Johansen, K.L. & Kristensen, A.H. 2016. Use of time‐lapse photography and digital image analysis to estimate breeding success of a cliff‐nesting seabird. J. Field Ornithol. 87: 84-95.
Ratcliffe, N., Guihen, D., Robst, J., Crofts, S., Stanworth, A. & Enderlein, P. 2015. A protocol for the aerial survey of penguin colonies using UAVs. J. UVS 3: 95-101.
Snyder, N.F.R., Johnson, E.V. & Clendenen, D.A. 1987. Primary molt of California Condors. Condor 89: 468-485.
Vas, E., Lescroël, A., Duriez, O., Boguszewski, G. & Grémillet, D. 2015. Approaching birds with drones: first experiments and ethical guidelines. Biol. Lett. 11: 20140754.